Caniço (Arundo donax L.)

Flora silvestre portuguesa

Espécie: Arundo donax L. Divisão: Magnoliphytas Classe: Liliopsidas Ordem: Poales Família: Poaceae (gramíneas) Sinonímia: Arundo pliniana, Turra. Nomes comuns: Caniço, cana, caniço-de-sequeiro. English names: Cyprus cane, giant reed.

«Ele [o beemoth (hipopótamo)] deita-se sob as árvores sombrias, no esconderijo dos canaviais e dos pântanos.» Job 40:21

Identificação: Quase dispensa apresentação, esta gramínea rizomatosa, erecta, que chega a atingir uma altura superior a 5 metros, de colmos largos (entre 4 e 5 cm de diâmetro) com engrossamento dos nós e folhas glabras de cerca de 60 cm de comprimento por 6 de largura. Panículas altas, densas, muito ramificadas, verdes ou avermelhadas. Formam aglomerados densos, os canaviais.

Tipo fisionómico: Microfanerófito.

Distribuição: Espécie comum nas regiões do Mediterrâneo.

Habitat: Ruderal e ripícola. Pode colonizar matagais xerófilos.

Floração: Junho-Setembro.flora silvestre portuguesa

Princípios activos: Proteínas, glúcidos, sais minerais e hemicelulose, fibra.

Propriedades: Decorativa, protectora de culturas.

Usos: Por formar densos aglomerados (canaviais), tanto o A. donax como o seu congénere, A. plinni, são frequentemente usados como barreiras vegetais contra os ventos e as pragas e também no parcelamento de terrenos. Os seus colmos, que em tempos idos serviram ao fabrico de flautas, são ainda hoje aproveitados sob a forma de vime pelo artesanato (cestaria) e no revestimento de telhados ou como canas de pesca, conforme era de uso comum na Antiguidade. Nas aldeias portuguesas, ainda hoje as suas canas são usadas para “arregadar” os fornos antes da entrada do pão.

Pode ser usada no fabrico de papel. Um acre de canavial produz a mesma quantidade de papel que quatro acres de eucaliptal, tendo ainda como vantagem o curto tempo de crescimento, cerca de três meses.

Curiosidades: Na Bíblia, o caniço é citado vinte e duas vezes, ou não fosse ele uma espécie tão comum no Médio Oriente.

«E olhei para a altura do templo em redor; eram as fundações das câmaras laterais [da medida] de uma cana inteira, seis côncavos grandes»

Ezequiel 41:8

Com efeito, no Antigo Egipto a cana (kaneh) era usada como unidade de medida e equivalia exactamente a seis côncavos (ammah), sendo que cada côncavo grande correspondia à medida entre o cotovelo e a unha do dedo médio (aproximadamente meio metro). Um kaneh tinha, portanto, qualquer coisa como 3 metros, assim seria a altura das fundações das câmaras laterais do templo da visão de Ezequiel (593 a. C., ano 25º do exílio dos Judeus). A medição deste templo profético destinava-se a dar consistência material a uma construção espiritual e simbólica, alicerçada em Deus e não na Terra.

A palavra hebraica kaneh, passou para o Grego, kánna, e para o Latim, canna, originando em Português “cana”.

Também a mitologia clássica soube aproveitar a imagem dos canaviais e o som aflautado que o vendo produz ao sacudi-los. Junto aos caniços escavou o rei Midas um buraco para nele enterrar o seu grito de desespero por os deuses o terem punidos com um par de orelhas de burro, já que o rei quisera ter o dom de transformar em ouro tudo em que tocasse. Vendo-se a morrer de fome, isto porque também os alimentos se tornavam ouro na sua boca, pediu aos deuses que o libertassem de um desejo tornado maldição. Os deuses assim fizeram, mas como castigo pela sua ambição, sujeitaram-no a ter para sempre orelhas de burro, que o rei se habitou a tapar para que ninguém as visse. Todavia, os canaviais junto aos quais sepultou o seu segredo sob a forma de confissão, ainda hoje sussurram a sua vergonha quando o vento lhes dá: O rei Midas tem orelhas de burro.

No âmbito desta tradição da cana como voz no vento, que parece ter um fundo mágico indo-europeu, surge na Europa do Leste o mito de que as canas que crescem junto ao corpo de um afogado revelam o nome do seu assassino quando sopradas.

As flautas de cana tinham na Antiguidade e nos mitos medievos um papel augúrico, sempre associado à revelação (apocalipse) e à denúncia de segredos. Com o Arundo spp. fazem-se as flautas de pan, peças de órgãos e clarinetes.

De acordo com a Botânica Oculta de Paracelso, o arundo é regido pelo planeta Mercúrio e podia ser usado como depurativo suave, fervendo, para tal, durante 25 minutos 30g da sua raiz em pó, o que também funcionaria com lactífugo. Uma crença dizia igualmente que dois pedaços de cana cortados de canas diferentes e postos um dentro de outro curavam membros deslocados.

Como axis mundi, a cana simboliza em diversas culturas a união entre o que está em cima (mundo uraniano) e o que está em baixo (mundo ctoniano), sendo que o Homem representa o ponto intermédio deste eixo, a mão que segura a flauta comunicadora.

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