Trigo (Triticum aestivum L.)

Flora Silvestre Portuguesa

Espécie: Triticum aestivum L. Divisão: Magnoliphytas Classe: Liliopsidas Ordem: Poales Família: Poáceas (gramíneas) Sinonímia: Triticum sativum Lam. Nome comun: Trigo, trigo-comum. English name: Wheat.

Cereal nobre e nutritivo, um companheiro do Homem desde os primórdios do Holoceno e símbolo da domesticação da Natureza.

Identificação: Gramínea que normalmente ultrapassa um metro e meio de altura. As inflorescências organizam-se em espigas compactas e detêm inúmeros grãos férteis. O tamanho das aristas varia de acordo com a notho-espécie.

Tipo fisionómico: Terófito

Distribuição: Tudo indica que a sua domesticação tenha começado na Médio no Médio Oriente. Actualmente encontra-se implantado em todo o mundo. Os EUA e a Rússia são os maiores produtores.

Habitat: Rara como gramínea espontânea mas muito comum como espécie cultivada.

Floração: Abril-Junho.

Princípios activos: Glícidos, proteínas (glúten), fibras (fosfolípidos, amido, hemiceluloses e sais minerais). O gérmen – embriões das cariopses – é rico em vitamina E

Propriedades: Nutritivo, emoliente, anti-diarreico, tópico-calmante e laxativo (farelo) e tonificante.

Partes usadas: Farelo e cariopses.

Usos: Alimentação – fabrico de pão. Muito usado em pastelaria e sob a forma de caldo de farinha. Em medicina tradicional, o óleo obtido a frio dos seus embriões é usado como anti-rugas, anti-estrias e anti-vermelhidão, bem como em limpezas de pele. O farelo quando fervido é útil na resolução de dermatites seborreicas e eczemas.

Curiosidades: Muito pode ser dito a respeito desta gramínea citada na Bíblia cerca de vinte e cinco vezes e presente na alimentação humana desde os primórdios do Neolítico. Os pioneiros da Revolução Neolítica foram igualmente os pioneiros no cultivo e domesticação do trigo.

A espiga representa, por extensão, o alimento, a base de sustento do corpo que depressa adquiriu o estatuto de pão para a alma. Um trigal dourado é imago de abundância, fertilidade e virtude. Na Antiguidade esteve associado a diversas divindades ctnonianas, como Ceres, Deméter e Cerridwen. Na mitologia católica, a espiga passou a estar relacionada com a Virgem Maria, tornando-se emblema da própria virgindade fecunda.

A sêmola de trigo-duro (Triticum durum L.) cultivado maioritariamente na Sicília, era a base da alimentação do exército romano, a par da pasta de atum. Com efeito, esta sêmola não apenas é extremamente energética como também é de lenta absorção pelo organismo, pelo que contribui para uma boa gestão dos açúcares e, assim, para a manutenção da boa forma física. A maioria das massas (esparguete e afins) é feita de sêmola de trigo-duro, porém não devem ser demasiado cozidas, devem ficar “al dente”, para que as suas virtudes se mantenham.

O trigo actual resulta de um longo processo de selecção artificial de sementes que levou ao cruzamento de espécies, pelo que a sua morfologia varia de aparência conforme as regiões onde é cultivado. O hibridismo com espécies endémicas confere ao trigo protecção contra pragas e doenças. Geneticamente, estas gramíneas possuem seis pares de base, dois de cada uma das três espécies a partir das quais evoluiram. As espécies do género Triticum são definidas de acordo com o número dos seus cromossomas. O grupo portador de 14 cromossomas, conhecido como Diploide, é o mais antigo. A única espécie pertencente a este grupo e cultivada ainda hoje parece ser o Triticum monoccocum (L.) Mk., cujas origens remontam a mais de 4000 anos no Médio Oriente. O Grupo Tetraploide (28 cromossomas) já não é tão raro e aparenta ter-se desenvolvido na mesma região. Dele fazem parte espécies como o Triticum durum L. (trigo-duro) e o Triticum turgidum ssp. Turanicum L., mais conhecido como “Kamut”, cereal que se manteve desconhecido durante mais de 2000 anos e cujo cultivo foi recuperado a partir de cariopses supostamente encontradas num túmulo egípcio em 1949. A espécie que por norma se encontra nos túmulos faraónicos é a T. monococcum. A pátria original do Kamut é incerta, mas tudo aponta para a actual Turquia., onde ainda cresce em alguns locais de forma espontânea, tendo sido provavelmente levado para o Egipto pelos Povos do Mar, que frequentavam o Mediterrâneo e o Egeu na Idade do Cobre, e aí se miscigenado com espécies endémicas. Segundo a mitologia judaico-cristã, este foi o cereal levado por Noé na sua Arca.

O grupo mais comum é o Hexaplóide (42 cromossomas), no qual se insere o Triticum aestivum L. (trigo-comum).

Chamo a atenção para o caso do designado “trigo-mourisco”, pois não se trata de uma gramínea. O Fagopyrum esculentum L. é uma poligonácea aparentada com os brócolos (ver a este respeito a secção das Polygonaceae).

O gérmen de trigo (embrião), muito rico em vitamina E, é obtido abrindo as cariopses. Corresponde ao cotilédone e aplica-se tradicionalmente no tratamento da zona (cataplasmas).

Apesar das suas propriedades tonificantes e nutritivas, o trigo apresenta um pequeno senão. Esta gramínea é frequentemente usada para desintoxicação dos solos em zonas poluídas… No entanto, quando cultivado em locais livres de poluentes urbanos, o trigo é tão bom para a saúde como qualquer outro cereal, devendo ser consumido sob a sua forma integral, isto porque o farelo limita a absorção dos açúcares, para além de facilitar o trânsito intestinal.

«E o linho e a cevada foram feridos, porque a cevada já estava na espiga e o linho na cana.// Mas o trigo e o centeio não foram destruídos, porque amadurecem mais tarde.» Êxodo 9:31-32

Estas passagens bíblicas reflectem um velho provérbio conhecido na região de Torres Vedras, onde estes dois cereais são muito cultivados desde tempos remotos: a cevada não espera pelo trigo. Com isto se quer dizer que as raparigas amadurecem mais depressa que os rapazes e, portanto, devem escolher rapazes mais velhos para casarem. A cevada é ceifada até ao final de Maio, enquanto o trigo só está pronto para a ceifa por altura do solstício de Verão, época do São João.

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