Poaceae (Poáceas/Gramíneas)

Flora Silvestre Portuguesa

Poaceae (Poáceas/Gramíneas)

As gramíneas são, a par das asteráceas (compostas), uma das famílias mais numerosas em botânica – cerca de onze mil espécies conhecidas distribuídas por 650 géneros. Para além de contribuírem para a conservação dos ecossistemas, pela sua capacidade de dispersão e reprodução que favorece todos os níveis tróficos, o seu principal valor refere-se à alimentação humana, quer directa quer indirectamente, representado assim uma importante base económica desde o Neolítico, altura em que o Homem começou a cultivar cereais, o que deu início a um processo evolutivo a partir da selecção artificial e à subsequente transformação da paisagem pristina. Ao seleccionar as gramíneas ideais para panificação, e destas as cariopses de maiores dimensões, a humanidade interveio de forma decisiva na evolução de um variado número de gramíneas que, progressivamente, foram dando sementes cada vez maiores até atingirem um estado de selecção estabilizante, quer por determínio da Natureza, quer porque o Homem deixou de seleccionar o grão.

De entre as espécies mais conhecidas e cultivadas encontram-se o Triticum aestivum (trigo doméstico), o Zea mays (milho), o Oryza sativa (arroz), a Avena sativa (aveia), o Hordeum vulgare (cevada) e o Secale cereale (centeio).

Filogenia

As Anomochloideae correspondem a uma família ancestral de gramíneas da qual derivaram as Pharoideae e as Puelioideae, que, por sua vez, deram origem a dois grupos distintos:

  • Bambusoideae;
  • Ehrhartoideae;
  • Pooideae.

Estas famílias caracterizam-se sobretudo pela sintetização do C3, pelo que habitualmente encontramo-las em locais mais húmidos e frescos (veja-se o caso dos bambus e do arroz). Em Portugal a maioria das gramíneas são C3 (Ex: Lolium, Poa, Festuca, cynosurus, agrostis…).

Do segundo grupo fazem parte:

  • Panicoideae;
  • Arundinoideae;
  • Chloridoideae;
  • Micrairoideae;
  • Aristidoideae;
  • Danthonioideae.

Caracterizam-se pela transição do C3 para C4 [Sinha & Kellogg, 1996], o que lhes permitiu colonizar praticamente toda a Terra, estendendo-se a habitats xerófilos e abertos, pradarias e savanas das regiões subtropicais. O principal efeito desta transição é a redução da fotorespiração (diminuição da emissão de vapor de água) e a saturação da fotossíntese com CO2 [Osborne e Freckleton, 2009; Edward & Smith, 2010]. As plantas C4 captam o CO2 nas células do mesófilo com uma mínima perda de água, fixando uma percentagem ao citoplasma, isto porque o carbono é primeiro fixado sob a forma de fosfoenolpiruvato, dando origem ao oxaloacetato, um composto de quatro carbonos, por reacção com o bicarbonato (carbono+H2O). Em Portugal as plantas tipo C4 ocorrem com menor frequência (ex: Cynodon dactylon)

E porque falamos de espécies alimentares, é interessante referir que as gramíneas tipo C3 são de mais fácil digestão, embora as tipo C4 sejam mais eficientes na realização da fotossíntese.

Morfologia

As gramíneas são liliopsidas (monocotiledóneas) frequentemente estolhosas (formam estolhos) ou rizomatosas (formam rizomas). Os caules são colmos formados por nós e entrenós sucessivos, de folhagem alterna, folhas paralelinérveas, lineares, de margem fina e cortante, de limbo por vezes áspero, cuja parte proximal é amplixicaule (abraça o caule) e a distal ovada ou mais frequentemente lanceolada. Detêm bainha e lígula, podendo em muitos casos apresentar aurículas que impedem a abertura da folha e consequente penetração de poeiras e bactérias no colmo. As inflorescências podem organizar-se em espiga (ex: Triticum), rácimo (ex: cynodon dactylon) ou panícula (ex: dactylis glomerata), podendo esta última ser aberta, compacta ou semi-compacta. As flores são geralmente hermafroditas, ostentado simultaneamente carpelos e estames, não possuindo nem pétalas nem sépalas, uma vez que estas peças florais servem principalmente para atracção de insectos polinizadores, o que as gramíneas dispensam, uma vez que a dispersão dos seus pólenes é anemófila (feita por acção do vento). As inflorescências são suportadas por glumas estéreis e estas, por sua vez, suportam as glumelas (lema, glumela inferior por vezes aristada, e pálea, glumela superior por vezes de reduzidas dimensões ou nula) que envolvem o fruto, uma cariopse, podendo alongar-se em arístulas. O ovário é súpero e cada espigueta pode conter mais do que uma flor de reduzidas dimensões, de um a três estames e dois estiletes.

Valor nutricional

Usadas quer na alimentação humana quer como forragem para pasto, as gramíneas possuem um alto valor nutricional, posto serem ricas em açúcares, proteínas e minerais.

Tomemos a título de exemplo a cevada. Cem gramas deste cereal comportam 8,4g de proteínas, 81,3g de açúcar, 1,7g de lípidos, 9,7mg de cálcio, 206 mg de fósforo, 0,67mg de ferro, vitaminas B12 e E.

O centeio é menos rico em açúcares e glúten, o que faz dele um cereal mais pobre mas também mais saudável, podendo ser consumido regularmente por diabéticos e pessoas com intolerância ao glúten. Todavia, este cereal é de difícil cozimento quando panificado sozinho, pelo que é necessário acrescentar-lhe cevada ou trigo. Na Idade Média, os mais pobres, sobretudo os que viviam no Norte de país, por vezes só tinham acesso ao centeio. Os pães mal cozidos eram escavados e usados como tigelas, sendo que a parte interior retirada voltava a ir ao forno. Associado a este cereal existia naquela época um grave problema, um fungo com propriedades alucinogénias conhecido por ergot e que se fixava às cariopses, acabando por ser panificado e semeado juntamente com o grão. Dadas as suas estranhas propriedades, o ergot desencadeou muitos dos mitos medievais, desde fadas a lobisomens, visões de seres extraordinários que mais não eram do que fruto do ergotismo.

O trigo tinha igualmente uma companheira indesejável, a cizânia, mais conhecida por joio, cujas propriedades também facilitavam insólitas visões.

Para além de nutritivas, muitas gramíneas possuem ainda propriedades laxativas e emolientes, calmantes e diuréticas, como a cevada e a aveia.

Distribuição

A sua adaptação a qualquer tipo de solo e de clima permite-lhes assegurar a forragem dos solos desde a orla costeira às montanhas. Em Portugal, a maioria das espécies distribuem-se pelos géneros Aegilops, Anthoxanthum, Arundo, Avena, Brachypodium, Briza, Bromus, Dactylis, Festuca, Hordeum, Lolium, Phalaris, Poa, Stipa e Vulpis, quase todos forrageiros.

Na Península de Lisboa, em particular, as espécies mais cultivadas são a cevada (hordem vulgare), o trigo (Triticum aestivum) e o milho (Zea mays). O centeio (Secale cereale) está praticamente ausente, sendo mais comum nas regiões serranas da Guarda e Viseu, visto adaptar-se muito bem à altitude e a solos pobres e rochosos, o que faz dele um cereal de valor inestimável.

Entre as espécies silvestres mais comuns nos prados calcários da região de Lisboa encontram-se o hordeum murinum (cevada-de-rato), o Sorghum halepense (sorgo), a Agrostis stolinefera (erva-fina), o Piptatherum miliaceum (talha-dente), a Poa annua (relva-dos-caminhos), a Poa trivilais (erva-da-febra-brava), o Brachypodium phoenicoides (braquipódio), a Avena sterilis (aveia-brava), a Avena fatua (aveia-das-fadas) e Avena barbata (aveia-barbada), o Cynodon dactylon (escalracho-pé-de-galinha) e o Phragmites autralis (caniço).

Espécies raras

De entre as espécies mais raras em Portugal continental destacam-se a Stipa offneri Breistr., cuja única localização parece ser um local na Serra da Arrábida; o Nardus stricta L. e o Holcus gayanus Boiss., localizados no extremo norte do país; a Koeleria vallesiana (Honck.) Gaudin e o Arrhenatherium pallens Link, a norte de Torres Vedras; o Sporobolus pungens (schreb.) Kunth, no Algarve; a Wangenheima lima (L.) Trin., a Trisetaria scabriuscula (Lag.) Paunero e a Stipa lagascae Roem. Et Schult, em Trás-os-Montes, para citar apenas algumas.

A maioria das gramíneas desta lista encontra-se distribuída uniformemente por toda a península de Lisboa com excepção do corredor Cabo da Roca-Sintra. Dado o microclima deste lugar, é possível encontrar nele espécies muito raras ou praticamente ausentes no resto da região. A Poa pratensis é exemplo disto. Achamo-la desde o Cabo da Roca até às encostas da serra, porém é praticamente nula na área envolvente. Já as suas congéneres – e amplamente distribuídas – Poa annua e Poa trivialis dificilmente lá se encontram. Caso idêntico é o da Avenula sulcata, presente apenas no norte de país e neste pequeno nicho formado entre a serra e o ponto mais ocidental da Europa.

Aegilops ovata L. Trigo-de-perdiz
Alopecurus arundinaceus Poir. Rabo-de-raposa
Arundo donax L. Caniço
Arundo plinii Turra Arundo-de-sequeiro
Avena barbata L. Aveia-das-fadas
Avena sterilis L. Aveia-selvagem
Brachypodium distachyon (L.) P. Beauv. Braquipódio
Brachypodium phoenicoides (L.) Roem et Schult. Braquipódio
Briza maxima L. Briza
Bromus diandrus Roth. Espigão
Bromus hordeaceus L. Bromo-cevada
Bromus madritensis L. Espadana
Bromus rigidus Roth. Fura-capas
Catapodium rigidum (L.) Dony Desmazéria-rija
Cortaderia selloana(Schult. et Schult. f.) Asch. et Graebn Erva-das-pampas
Cynodon dactylon (L.) Pers. Erva-gramilheira
Dactylis glomerata L. Panasco
Festuca arundimacea Schreb. Feno-d’água
Festuca glauca Vill. Grama-azul
Hordeum murinum L. Cevada-de-rato
Hyparrhenia hirta (L.) Stapf in Prain. Palha-da-guiné
Lagurus ovatus L. Rabo-de-lebre
Lolium rigidum Gaudin Azevém
Melica ciliata L. Mélica
Panicum repens L. Escalracho
Pennisetum alopecuroides L. Raposa-dos-pântanos
Phalaris coerulescens Desf. Alpista-azul
Phalaris minor Retz. Talaceiro
Phragmites australis (Cav.) Trin. ex Steud. Fragmites
Piptatherium miliaceum (L.) Coss. Milho-miúdo
Poa annua L. Relva-dos-caminhos
Poa trivialis L. Poa-comum
Polypogon monspeliensis(L.) Desf. Pata-de-coelho
Polypogon viridis (Gouan) Breistr. Rabo-de-raposa-viçoso
Rostraria cristata (L.) Tzvelev. Rabo-de-cão
Setaria adhaerens (Forssk.) Chiov. Milhã-verde
Panicum miliaceum L. Milho-paínço
Sporobolus indicus (L.) R. Br. Erva-da-fuligem
Stipa capensis Thunb. Baracejo
Sorghum halepense (L.) Pers. Sorgo
Triticum aestivum L. Trigo
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