Alhos-selvagens (Allium spp.)

flora silvestre

Espécie: Allium neapolitanum Cirillo.
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Liliopsidas
Ordem: Asparagales/Ant. Liliales
Família: Amaryllidaceae/Ant. Alliaceae
Sinonímia: Nothoscordum inodorum (Aiton) G. Nicholson.
Nomes vulgares: Alho-de-Nápoles, alho selvagem branco, alho-das-valas.
English names: Daffodil garlic, wild garlic.

Os fins-de-tarde sombrios são propícios ao avistamento de fadas nas florestas e nos meios rurais; entenda-se por fadas a ilusão óptica que nos acomete ao lusco-fusco e nos faz crer num campo coberto por pequenas flores que se desvanecem quando focamos melhor o olhar. Tinha ido até junto da casa abandonada em busca de fumo-da-terra, uma variedade clara que eu sabia ali existente. Para meu desgosto, toda aquela área tinha sido arrasada pelos herbicidas. Do fumo-da-terra apenas restavam algumas raízes mortas agarradas com afinco a um solo nu e lamacento. Nunca percebi por que razão as pessoas preferem conviver com a desolação e com a sujidade, quando em vez disto poderiam valer-se das plantas que crescem espontâneas sem que peçam algo em troca além de respeito.
Ao subir a rua, já de regresso a casa, dei conta de uma alvíssima flor a espreitar-me por entre malvas e gramíneas. Era um alho-selvagem muito particular, um alho-de-Nápoles, e não estava só, achava-se rodeado por outros do seu género, delicados alhos-rosa que iluminavam com a sua simplicidade um emaranhado criptogâmico. Talvez estas imagens sejam tudo quanto deles reste em breve, quando regressarem os herbicidas.

flora silvestre

Espécie: Allium roseum L.
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Liliopsidas
Ordem: Asparagales/Ant. Liliales
Família: Amaryllidaceae/Ant. Alliaceae
Sinonímia: Allium roseum L. var. typicum Regel.
Nomes vulgares: Cebolinho-rosado, alho-selvagem-rosa, alho-das-valas.
English names: Wild garlic.

Identificação: Herbáceas bolbosas e perenes, de folhas glabras, estreitas e paralelinérveas.  A. neapolitanum  (alho-neapolitano) atinge cerca de 50 cm de altura. Caule dividido em múltiplos pecíolos longos e  lassos, corola composta por seis pétalas muito brancas, um carpelo ligeiramente rosado na base, rodeado pelo androceu de seis estames de anteras esverdeadas de inserção dorsal.

O A. roseum (alho-rosa) apresenta igualmente um caule dividido em múltiplo pecíolos, sendo estes de menores dimensões. A corola difere também do seu congénere na cor, sendo com frequência rosada. As suas anteras são de reduzida dimensão e de um tom vivo, amarelo-alaranjado.

O A. ampeloprasum (alho-de-verão) exibe folhas espessas, paralelinérveas e lanceoladas, de aroma intenso. Possui um pseudo-estema formado pelo enrolamento das folhas basais. A inflorescência é arroxeada e esférica.

O A. gracile (alho-de-perdiz), mas conhecido entre os taxonomistas por Nothoscordum gracile, apresenta igualmente caules fistulosos de secção circular divididos numa cimeira de flores brancas, rosadas antes da ântese, e hexâmeras. O que realmente o distingue são os seus estames achatados, quase petalóides, que não ultrapassam as pétalas.

flora silvestre

Espécie:  Allium ampeloprasum L.
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Liliopsidas
Ordem: Asparagales/Ant. Liliales
Família: Amaryllidaceae/Ant. Alliaceae
Sinonímia: Não encontrada.
Nomes vulgares: Alho-porro-selvagem, alho-de-verão, alho-inglês.
English names: Great-headed garlic; levant garlic, elephant garlic.

Tipo Fisionómico: Geófitos/terófitos.

Distribuição: O alho-neapolitano é frequente na região de Nápoles e em toda a bacia do Mediterrâneo. Crê-se tanto os alhos como a maioria das cebolas comestíveis sejam originários das estepes do Quirguistão. Hoje a distribuição estas espécies silvestres é bastante alargada a nível europeu, principalmente mediterrânico. O alho-de-perdiz é oriundo do México.

Habitat: Terrenos soalheiros e abrigados, ruderais, margens de caminhos, prados incultos, ripícola. Tanto a A. roseum como o A. ampeloprasum suportam condições edafoxerófilas.

Floração: Fevereiro-Abril. O A. ampeloprasum e o A. gracile florescem por último, em Maio-Junho.

Princípios activos: Contêm vitaminas A, B1, B2, C e PP, cálcio, ferro, magnésio, pectina e alicina. O A. ampeloprasum contém uma percentagem significativa de arginina, usada pela indústria cosmética na preparação de champôs para fortalecimento das raízes capilares.

flora silvestre

Espécie: Allium gracile Dryand. ex Aiton, Hort. Kew.
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Liliopsidas
Ordem: Asparagales/Ant. Liliales
Família: Amaryllidaceae/Ant. Liliaceae
Sinonímia: Nothoscordum gracile (Aiton) Stearn;
Nothoscordum fragrans (Vent.) Kunth;
Nothoscordum inodorum (Aiton) Asch. & Graebn.
Nomes vulgares: Cebolinha-de-perdiz, alho-bravo.
English names: Onion weed.

Propriedades: Anti-bacterianas, anti-sépticas, vermífugas, expectorantea, febrífugas, venotónicas.

Partes usadas: Planta completa, principalmente os bolbos.

Usos: Todas as espécies de alhos silvestres são comestíveis. As pétalas e folhas são um óptimo tempero para saladas. Combatem a gota, o colesterol, os vermes intestinais e a hipertensão arterial. A alicina é um antibiótico eficaz no combate à gripe, razão pela qual o alho foi muito usado no tratamento da gripe espanhola. Também usado como expectorante e febrífugo.

Particularmente, o A. ampeloprasum é usado como repelente de insectos e desinfectante. Reduz o colesterol e a glicémia. Faz aumentar a temperatura corporal e é considerado um antídoto para mordeduras de serpente. Tomado após o parto, facilita a descarga uterina. A arginina é também considerada um afrodisíaco.

Curiosidades: No Antigo Egipto dizia-se que sete quilos de alho equivaliam a um escravo. Dióscoro, médico grego, e o filósofo Galeno consideravam-no um poderoso antídoto para mordeduras de serpente. No século XIX, Louis Pastour analisou as suas propriedaes anti-microbianas, razão pela qual foi muito utilizado durante as duas grandes guerras para tratamento e prevenção da gangrena.

De acordo com a mitologia medieval, era o alho-selvagem e não o sativo, que afastava os vampiros, assim havia quem o colocasse sobre as portas e janelas para afastar o Mal.

O alho-de-verão, especificamente o seu parente doméstico, o A. ampeloprasum var. porrum, é citado no Talmude e também na Bíblia, a par do alho comum, onde é referido com saudade devido à fome sentida durante o Êxodo, já que nada mais havia para comer além de Maná:

«Lembramo-nos dos peixes que comíamos de graça no Egípto; e dos pepinos e dos melões, e dos porros, das cebolas e dos alhos./Mas agora, a nossa alma seca-se; coisa nenhuma há, senão este Maná, diante dos nossos olhos.» Números 11:5-6

Os Judeus, de acordo com o Talmude, consomem-no à sexta-feira, segundo a tradição de que o alho faz o rosto brilhante, aumenta a fertilidade, mata os parasitas e mantém o corpo quente.

Durante uma epidemia de peste negra que devastou Marselha em 1722, um grupo de ladrões espoliava os corpos das vítimas caídas nas ruas ou em suas casas, escapando imunes ao contágio por supostamente ingerirem alho macerado em vinagre.

As brincadeiras solsticiais das festas de São João no Porto celebrizaram-no, porém a sua recente substituição por martelinhos de plástico obscureceu esta liliácea que ainda hoje habita espontaneamente os nossos ruderais.

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