Trovisco (Daphne gnidium L.)

flora silvestre

Espécie: Daphne gnidium L.
Divisão: Magnoliophytas
Classe: Magnoliopsidas
Ordem: Malvales
Família: Thymelaeaceae
Sinonímia: Daphne gnidium L. for. Latifolia P. Cout.; Daphne gnidium L. for. Vulgaris P. Cout.; Daphne gnidium L. var. maritima Rozeira.
Nomes vulgares: Trovisco, erva-de-joão-pires, gorreiro, lauréola-macha, mezereão-menor, matapulgas.
English name: Flax-leaved daphne.

Foi em tempos mulher, uma jovem ninfa por quem Apolo se apaixonou. Hoje é um arbusto a perigar na bordadura da extinção…

Identificação: Arbusto de folhagem persistente, que atinge cerca de 2 metros de altura. Identificável através das folhas, oblanceoladas, estreitas e acuminadas, algo coriáceas, dispostas alternadamente em redor dos ramos, dando a impressão de formarem verticilos. As flores são sésseis, claras e desprovidas de pétalas, e brotam em corimbos terminais densos (dez a sessenta flores), que ao longo da maturação adquirem um aspecto de panícula, surgindo também nas axilas das folhas. Possuem quatro sépalas petalóides e oito estames. Os frutos, monospérmicos, são bagas vermelhas/alaranjadas, que se tornam arroxeadas quando maduras.

Tipo Fisionómico: Nanofanerófito.

Distribuição: Europa, principalmente na bacia do Mediterrâneo e Macaronésia.

Habitat: Devemos sobretudo procura-lo nas orlas dos bosques, mas também em matagais parcialmente sombrios e cursos de água.

Floração: Junho-Outubro.

Princípios activos: Daphnetoxina e um esteróide diterpénico.  

Propriedades: Tóxica, anti-inflamatória, tintureira, anti-cancerígena, insecticida, icticida, emética, purgativa, vulnerária e abortiva.

Partes usadas: Ritidoma da casca e folhas.

Usos: Em doses mínimas, o ritidoma da casca tem um efeito anti-inflamatório e laxante. Todavia, o uso interno é desaconselhado por se tratar de uma planta altamente tóxica. Quanto ao uso externo, o trovisco conta com um longo historial na área da cosmética. Na Idade Média, e até há pelo menos um século, a infusão ou maceração das folhas desta planta era utilizada pelas mulheres para disfarçarem os cabelos brancos. O ritidoma, macerado em vinagre durante uma hora, foi em tempos usado na desinfecção de feridas, dado o seu aspecto cicatrizante, segundo refere Manuel Pereira-Caldas (1901) na sua Flora Médica da Ribeira de Vizela (Suplemento de Arqueologia Ano 11, nº 72, Revista Municipal de Lousada). Ainda de acordo com este autor, as folhas eram em tempos utilizadas no tratamento da escrófula e da sífilis, pela sua acção depurativa.

O contacto directo com a seiva desta planta pode desencadear dermatites. A sua ingestão em doses superiores a um grama pode causar a morte em poucas horas. Devido precisamente à sua elevada toxicidade, as decocções de trovisco eram aplicadas contra piolhos, pulgas, carraças, lêndeas e tinha. A mesma revista acima citada, refere a sua utilização como arte de pesca, costume medieval que tinha lugar no rio Sousa, na região de Lousada, relatado nas Inquirições Afonsinas (de 1220 a 1258), e que ainda hoje encontramos entre os mais diversos povos, nomeadamente ameríndios, ainda que por meio de outras plantas. A «entroviscada», convocada pelo mordomo do rei, consistia na preparação do trovisco, muitas vezes em conjunto com o perrexil, para ser lançado à água em determinadas zonas do rio, onde se sabia haver maior abundância de peixe. Por outro lado, esta prática milenar também originava escassez nos rios, visto que não apenas atordoava o peixe como também matava os seus ovos, quando os havia. Por esta razão, esta arte de pesca, obrigatória na Idade Média, foi proibida na década de ‘70 do passado século.  

Mais recentemente, as suas recém-descobertas propriedades anti-cancerígenas têm vindo a ser investigadas como potenciais fármacos a serem usados no tratamento da leucemia.     

Curiosidades: Crê-se que a poderosa seiva desta planta, conjuntamente com heléboro, entrasse na composição de um veneno letal, com o qual se untavam as pontas das flechas na Antiguidade e na Idade Média. Também da sua madeira se faziam amuletos contra todo um rol de superstições, dado serem-lhe atribuídas propriedades mágico-religiosas, ou não estivéssemos nós a falar da uma mulher convertida em arbusto por um deus do Olimpo.

Daphne era uma ninfa por quem Apolo se apaixonou e dele fugiu. Em busca de refúgio, a jovem pediu a Zeus que a transformasse num arbusto, num loureiro, ou, noutras versões, num trovisco (Daphne gnidium), sendo que «gnidium» advém de «Cnidos», antiga cidade grega localizada na costa da actual Turquia. Numa outra versão do mito, Daphne era filha do rio Ládon, ou do rio Peneu da Tessália, e da Terra. Ao ver-se perseguida por Apolo, implorou ao rio, seu pai, que a escondesse. Ládon transformou-a, então, num loureiro, o emblemático arbusto consagrado àquele deus. Não deixa de ser curiosa esta associação entre a Terra e o Rio do mito clássico e a planta em si, quer esta seja o trovisco ou o seu parente loureiro, arbustos que encontramos frequentemente nas margens de cursos de água ou nas bordaduras semi-sombrias dos bosques, facto que muito terá contribuído para a sua mitificação.

Em fitossociologia, o trovisco encontra-se frequentemente associado ao carvalho-alvarinho, tal como se verifica também aqui, na Vila da Parede.

Os incêndios florestais, a somar ao derrube de florestas endémicas em favor das gananciosas plantações de eucalipto pela indústria do papel, tem levado ao recuo do habitat do trovisco, colocando esta espécie em perigo de extinção no território nacional. Na vila foram identificados dois exemplares que urge conservar, um localizado num terreno baldio na Rua Almada Negreiros e outro na Estrada Militar.

O exemplar da Rua Almada Negreiros foi ontem cortado… 

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